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15 Coisas que você NÃO precisa saber antes dos 25 anos

Quando você joga “25 coisas antes dos 25 anos” no Google, mais de 25 mil resultados aparecem para te assombrar. Listas e mais listas com coisas que você já fez; não fez, mas se arrepende; fez e gostaria de não ter feito e não fez, mas não tem a menor vontade de fazer.

Parece que sempre tem alguém pronto pra te dizer o melhor jeito de aproveitar sua própria vida…

Apesar de achar isso meio bizarro, hoje é meu aniversário de 25 anos e eu decidi fazer uma lista de 15 coisas que eu descobri nesse um quarto de século. Coisas que ninguém tem obrigação nenhuma de aprender, concordar ou fazer igual, mas que eu gostaria de compartilhar mesmo assim.

É um jeitinho meio doido de olhar pra trás, agradecer e comemorar esses anos de vida que, olha, com altos e baixos, perdas e ganhos, erros e acertos foram de uma lindeza só!

Bora lá?

1. Você não precisa ser o que os outros dizem que você é
Basta nascer pra começarem a te rotular. “Nossa, ela é tão estudiosa”, “Mas como parece a tia fulana, né?”, “Olha como ela cuida do gatinho! Será que vai ser veterinária?”. Aí você cresce acreditando nessas coisas e esquece de simplesmente olhar pra dentro. Melhor do que abraçar a narrativa que outros pensaram pra você é escrever a sua própria história. Demorei uns 22 anos pra sacar isso, mas que bom que percebi a tempo. Hoje, papel e caneta estão na minha mão.

2. Futuro e ansiedade são melhores amigos
Plano de carreira, previdência privada, consórcio, pós-graduação, mestrado, doutorado… a lista de coisas que colocam nas nossas costas assim que terminamos a faculdade é infinita. A todo tempo nos cobram resultados ou, no mínimo, um plano fechado para os próximos 10 anos. A gente vive esperando a virada, o momento em que as coisas vão andar, as surpresas que o futuro reserva e, nessa ânsia de estar a frente, acabamos deixando os pequenos momentos e prazeres pra trás. Deixa eu te contar uma coisa? O café que você pode tomar agora é muito melhor do que todas as coisas que você pretende fazer semana que vem. Planeje o futuro, mas não abra mão de saborear o café.

3. O medo de errar é venenoso
Ninguém fala quantos protótipos o Steve Jobs teve que fazer antes de lançar o iPhone. Ninguém compartilha aquele belo não que recebeu no processo seletivo do treinee. Ninguém divide os momentos em que se sente uma farsa. Como a gente é trouxa e mede o sucesso por comparação, quando as coisas não saem como planejamos, nos sentimos um fracasso, o que está perigosamente perto de parar de colocar a cara a tapa com medo de se sentir assim. As pessoas mais interessantes que eu conheço se expõe diariamente ao risco de parecerem ridículas. Espero ter essa coragem um dia.

4. Saber recomeçar é mais importante que acertar
Errar todo mundo erra, é uma parte inseparável de tentar fazer algo genuinamente novo. O que vai te definir como profissional e ser humano não é isso. É não ter medo de jogar fora uma ideia e abraçar o desafio de uma folha em branco, na tentativa de fazer sempre mais e melhor.

5. Fazer dieta não funciona, comer bem sim
Dos 15 aos 24 anos de idade vivi em uma paz armada com o meu corpo. Este ano, decidi fazer duas coisas: parar de me pesar e deixar de fazer dieta. Queria construir uma nova relação com a comida, com menos culpa e mais consciência. Ainda estou engatinhando nisso, mas nunca me senti tão bem e saudável e, de quebra, ainda diminui um número de calça.

6. O corpo é meu
O que significa que eu como e bebo o que eu quero, uso as roupas que me convém, me depilo quando tenho vontade e mando pastar qualquer um que encoste em mim sem o meu consentimento. É duro pensar que eu precisei de anos pra me dar conta disso – ser mulher não é fácil – mas antes tarde do que nunca, né?

7. Ter um hobby é fundamental
O Flamenco é um relicário na minha vida. Um lugar pra onde posso fugir para lembrar que não existe profissão, relacionamento ou decisão que me defina. Ter esse lembrete é o que faz com que eu me sinta livre o suficiente para mudar de rumo sempre que for necessário.

8. Você nunca se arrepende de investir em experiências
Sabe aquele show incrível que tá meio salgado? Aquele restaurante especial que você gostaria de conhecer, mas sempre deixa pro mês seguinte? A viagem dos sonhos que suas amigas estão planejando e você acha que não vai ter grana pra colar junto? Vai fundo. E vai sem medo. Investir em experiências nunca gera arrependimento e dinheiro sempre aparece.

9. Todo mundo deveria se dar uma viagem sozinho de presente
Mesmo. Ir para um lugar porque você quer, para fazer coisas que despertam seu interesse e se reconectar com a sua identidade é um gesto de amor com você mesmo. E quem se ama, ama melhor.

10. Relacionamentos exigem tanto cuidado quanto uma planta
Não dá pra querer ter manjericão fresco e esquecer de regar a horta. Não dá pra querer ter amigos na hora do aperto e não tirar uns minutinhos da semana pra saber como eles estão. Simples assim.

11. Amor nunca sobra e dura pra sempre
Do primeiro namorado aos casos mais passageiros, dos amigos de infância aos colegas de trabalho, das paixões concretizadas aos desejos mais platônicos, se foi amor, está comigo até hoje. Pode ter se transformando com o tempo e mudado de forma, mas continua aqui. Não adianta. Pra mim, não existe amor passado. É tudo presente e nunca vai ser demais.

12. Todo mundo tem uma história
Sabe aquela pessoa meio maluca que te estressa? Ou aquele colega de trabalho que te trata mal? Então, ninguém fica assim por acaso. Todo mundo tem uma história e, as vezes, tentar entender não custa nada. Acolher as diferenças diminui a raiva, amplia as energias positivas ao seu redor e pode ser algo transformador, tanto pra você, como pra quem está na outra ponta.

13. Existe algo em comum entre todos os seres
Já tentou olhar dentro dos seus próprios olhos no espelho? Se não, experimenta. Cinco minutos olhando pra dentro e você vai perceber que existe uma essência, uma energia vital compartilhada por todos nós. O que nos separa é superficial e chega a ser insignificante perto do que temos em comum.

14. Eu não sou, eu estou
Todo o dia a gente muda um pouquinho, mas, por algum motivo que eu não sei explicar, as pessoas exigem que nossos sonhos e projetos permaneçam intocados. Por incrível que pareça, muita gente acha que eu entrei na Faculdade de Direito porque fui obrigada pelos meus pais, o que não é verdade. Cinco anos atrás eu estava advogada. Hoje, eu estou redatora. Amanhã eu posso estar outra coisa e tudo bem. O importante é ser fiel à minha essência e colocar o que eu tenho de melhor nas coisas que eu faço. Meu senso de realização vem disso e não de um título.

15. O tempo é muito relativo diante da eternidade
Tenho um casaco de lã que foi do meu avô materno. Todas as vezes que o coloco, lembro da elegância e leveza que ele tinha e das músicas que ele fazia para os netos. Detalhe: eu nunca conheci o meu avô. Todas as memórias que tenho dele são, na verdade, relatos que ouvi de outras pessoas. Para mim, isso é a prova máxima de que algumas coisas duram para sempre, ou pelo menos se propagam por muitas gerações. Tratar as pessoas de um jeito amoroso e gentil, cultivar as relações, irradiar amor… tudo isso se propaga no tempo, mas, mesmo assim, escolhemos nos apegar ao que é efêmero.Vai entender… A pergunta que fica é: com o que você quer gastar seu tempo? Com o que vai embora ou o que dura para sempre?

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Cabides

Todos os dias, meu pai trabalha de terno, gravata e camisa social.

Se tem uma peça de roupa nesse mundo que é um porre de lavar e passar é camisa social. Enquanto você estica um lado o outro amarrota, a gola está eternamente encardida e o punho condenado a viver perigosamente, sempre passando a milímetros de distância do chão.

Pra evitar esse estresse, de uns tempos pra cá, meu pai decidiu levar as dele para a lavanderia, o que seria um fato absolutamente indiferente se o estabelecimento escolhido não fosse uma fonte inesgotável daqueles cabides de arame, que atrapalham a organização de qualquer armário.

Eu sempre tive problemas para manter minhas roupas em ordem. Periodicamente, a bagunça atinge proporções tão gigantescas que e eu sou obrigada a tirar tudo dos cabides e gavetas e começar a arrumação do zero, coisa que, obviamente, postergo o máximo que posso.

Como desculpa para adiar a faxina do guarda roupa, costumo usar todo tipo de argumento, mas um dos mais recorrentes é a falta de padrão dos cabides aqui de casa. Além dos arames herdados da lavanderia, temos os de madeira, plástico mole, plástico duro, acrílico e ferro. Se sozinhos eles já são péssimos, juntos conseguem ser ainda piores, porque começam a se enganchar e embolar tudo.

Nessa toada, já estava adiando a arrumação do meu armário há uns três meses. Olhava pra ele e pensava que nunca ia dar jeito naquele caos sem cabides bonitinhos, padronizados e capazes de conviver em harmonia. Chegava a me programar pra fazer esse investimento, mas é claro que sempre aparecia alguma coisa mais urgente ou mais legal do que comprar cabides, e lá ia meu armário ficando pra trás de novo.

Foi aí que percebi se eu parasse de lutar contra os cabides da lavanderia, eles talvez pudessem trabalhar a meu favor. Resistência e design certamente não eram atributos dessas belezinhas, mas depois de semanas e mais semanas de camisas sociais do meu pai, eu tinha cabides de arame o suficiente para um armário padronizado e bem mais organizado do que o que eu estava cultivando.

Resolvi tentar e, olha, eles saíram melhor do que a encomenda.

Às vezes, resolver um problema é só uma questão de parar de reclamar e trabalhar com o que a vida oferece. O resultado costuma ser melhor do que a gente pensa. Ou pelo menos foi isso que percebi arrumando meu armário hoje.

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Soleá

Quando dançada em seu formato mais tradicional, a Soleá começa em um rasgueo de guitarra. Com intensidade, o guitarrista bate repetidamente nas cordas do violão, enquanto o bailaor se posiciona no palco.

Em seguida, o cantaor começa a entoar um “ai” alongado e cheio de floreios, que mais parece um grito sentido, uma espécie de lamento de quem, imerso em tanta dor, não consegue fazer nada além de chorar.

Inconformado, o bailaor explode em uma sequência de golpes com os pés até que, desesperado pela consciência que toma da própria solidão, olha para os músicos em busca de ajuda.

Guitarra e cante voltam a soar. Dessa vez, falando sobre medo, amores perdidos e outros sentimentos tão primitivos quanto o próprio ser humano.

Com gestos alongados, o dançarino começa a se movimentar pelo palco acompanhado a música que se estende por compassos infinitos de tão lentos. O cante termina e, com a ajuda da guitarra que insiste em dedilhar, o bailaor volta a sapatear intensamente.

Cíncopas, tercinas, quatrinas, pausas, respiros, golpes. O sapateado vai ficando tão rápido que a Soleá já não se aguenta e implora para romper as barreiras daquela pulsação arrastada que lhe prende ao chão.

Revigorado pela consciência que tomou da fortaleza do próprio corpo, o bailaor vai conduzindo o andamento para cima, até que a Soleá finalmente se liberta e vira Bulería, uma dança repleta de força e energia.

Desde as minhas primeiras aulas de Flamenco, ouvia que a Soleá era um dos ritmos mais difíceis de bailar. Durante muito tempo, achei que essa complexidade vinha dos pés enrolados e desse diálogo cheio de nuances com os músicos, mas não. Hoje, percebo que a Soleá fala de solidão e é aí que mora o abismo.

Ficar sozinho não é fácil. A vida dá a deixa – que pode ser uma viagem, um fim de namoro ou até mesmo um rasgeo de guitarra, por que não? – e você tem que correr para se posicionar no palco.

No começo, o silêncio incomoda e não são poucas as vezes em que você bate o pé no chão a procura de qualquer ocupação que te faça esquecer da sua própria condição.

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Inconformado, você olha pra sua vida, procura sentido nela, e nada. Você olha para os seus planos, busca esperança neles, e nada. Você olha pra cima, implora por alguma ajuda mística-atrológica-sobrenatural e nada. Absolutamente nada. Todos os planos e esperanças foram depositados em algum lugar que não está mais disponível para contato.

Exausto, você simplesmente decide parar de fazer tanto esforço, fecha os olhos e torce para que a música te leve até algum lugar bonito. Os dias vão passando alongados e o tempo parece infinito de tão lento, mas é aí, nesses segundos intermináveis, que você desiste de olhar para os lados e finalmente aprende a olhar pra dentro.

Não é a toa que a Soleá começa com um “ai” alongado e sofrido. Quando estamos sozinhos, parece que aquele buraco na alma só vai parar de doer quando encontrarmos uma companhia capaz de preenchê-lo. Acontece que o baile e a vida vão mostrando o quanto já somos completos por natureza e, de repente, percebemos que estar sozinho em um palco é assustador, mas extremamente libertador também. Aquele quadrado é seu. Só seu. E você pode fazer com ele o que quiser.

Então você faz.

Cíncopas, tercinas, golpes, uma vontade de engolir o mundo tão grande que você chega a questionar se realmente vai dar conta de tudo aquilo,  mas a hora de testar limites, de ver o quão intensamente você é capaz de sapatear e viver, é essa.

Pausas, quatrinas, colcheias, semínimas, o andamento aumenta e por um triz você não perde o ritmo. Ao fundo, a música te empurra pra frente. Você respira, reencontra seu eixo e continua sapateando.

Finalmente, a consciência da sua própria solidão já não te prende ao chão. Ao contrário, ela te liberta. A Soleá já não se aguenta e implora para virar Bulería. Você já não se aguenta e explode em força, energia e beleza.

Daqui pra frente, você será sua melhor companhia e o depositário mais fiel para todos os seus planos e esperanças. O que vier no futuro é para te tornar melhor e não mais completo. Pleno você já é. E essa convicção ninguém nunca mais vai te tirar.

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Todas as fotos que ilustram este post são do Felipe Chiaramonte que, mesmo não conhecendo a Soleá, conseguiu me fazer enxergar muito do que ela tem a dizer. Gracias, Fe.

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O bolo e o tempo

Fazer bolo é uma ciência complexa. E os bolos da minha vó são dignos de um Nobel. Fofos e molhadinhos, são daqueles para tomar com café. Sem cobertura ou muita frescura, eles derretem na boca e, pelo menos pra mim, gritam infância a cada pedaço.

Um dia pedi pra ela me ensinar a fazer uma torta de banana. O começo foi simples: separa os ingredientes, corta a banana, bate o ovo com a manteiga, junta a farinha…

– O que eu faço agora?
– Coloca a clara em neve e mistura.
– Ok.
– Não bate! Mistura!
– Mas qual a diferença?
– Misturar é bater com calma.

Assar um bolo tem dessas sutilezas. Um fogão aberto fora do tempo certo ou um vento encanado na hora errada podem ser fatais. E, segundo Dona Lu, bater ao invés de misturar pode ser decisivo para a fofura da sua obra.

Para os ansiosos, como eu, esse tipo de coordenada é um horror. A gente quer que o bolo fique pronto logo. E que fique perfeito, de preferência. Esse negócio de esperar e misturar não é a nossa praia, mas é o que fazer um bolo de vó exige.

Isso tudo me fez pensar em como existem uns ofícios de outra época que são muito desafiadores para os habitantes da modernidade: tricotar, revelar fotos, ouvir um disco inteiro…

Tudo isso exige uma calma e uma paz de espírito que era óbvia para a geração da minha vó, mas que, pra gente, é tipo animal em extinção.

Não. Não é o tempo que está passando mais rápido.
É só o medo de perder tempo que é maior.

E isso vem ficando cada vez mais claro pra mim como algo que preciso aprender a controlar.

Tenho uma dificuldade gigantesca de parar. Se tiro um final de semana para ficar em casa e dormir, por exemplo, sou invadida por uma sensação de culpa sem tamanho: como assim eu não estou pesquisando aquele curso em Nova Deli? Os textos do blog não vão se escrever sozinhos, hein? É assim que você pretende construir uma carreira?

O diabinho da auto-cobrança perde absolutamente todas as oportunidades de ficar calado.

No meio de tudo isso, as redes sociais não ajudam. Todo mundo parece estar sempre um passo (ou muitos) a frente de você. Se na época da minha vó a grama do vizinho parecia mais verde, hoje, o vizinho sempre parece estar jantando em lugares mais legais e viajando mais do que você.

Ainda estou bem longe de descobrir a receita para superar esses obstáculos, mas desconfio que a saída para uma vida mais tranquila seja a mesma do bolo fofinho da minha vó: misturar, não bater.

Os ingredientes estão aí. O bolo vai ficar pronto no tempo dele. Não precisa ter pressa. E, enquanto essa hora não chega, o jeito é curtir o processo. Colocar uma música, misturar as coisas com calma e nunca abrir o fogão antes da hora. Se o bolo solar, não tem problema: sempre tem mais farinha na dispensa.

 

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Hoje é a terceira sexta-feira de outubro!

Hoje, como em todos os outros dias da semana, eu acordei, tomei café e me arrumei para sair de casa.

Não tinha fantasia me esperando, nem maquiagem extravagante no look do dia. A cerveja não começou a entrar no meu organismo antes das 11h da manhã e meu único compromisso na rua era uma consulta médica. Não teve Gretchen, maria-mole e nem esfiha do Habibs sentada em um dos calçadões do centro. Depois de cinco anos, essa foi a primeira terceira sexta-feira de outubro em que não teve Peruada.

Reza a lenda (e, como toda lenda, existem várias versões dessa história) que há muitos anos atrás, indignados com a corrupção de um prefeito paulistano que criva perus, os alunos da São Francisco roubaram um dos animais mais premiados do político e, em um ato bem humorado de protesto, convidaram o dito cujo para um jantar em que o peru era o prato principal.

Assim nasceu a Peruada, uma espécie de festa/carnaval fora de época em que os estudantes de Direito da USP vão às ruas fazer um protesto etílico-circense contra os absurdos políticos e sociais que acontecem no país e no mundo.

Com o passar dos anos, a festa foi se descaracterizando e, hoje, é tudo muito mais parecido com um grande carnaval fora de época mesmo. Olhando de fora, é até um pouco absurdo o fato de estudantes ocuparem as ruas do centro e transtornarem a vida de tantas pessoas em plena sexta-feira para fazer uma festa. Mas quando você está lá no meio, é difícil não achar aquela maluquice divertida.

Tenho boas lembranças das minhas Peruadas e talvez, por isso, hoje o dia tenha amanhecido com alguns toques de nostalgia. Durante muito tempo, eu me esforcei para negar a São Francisco na minha vida. Com a crise profissional e a mudança de carreira, veio uma necessidade grande de criticar aquele espaço, falar que ele não tinha nada a ver comigo e reafirmar a todo tempo o quanto aquela faculdade não tinha um lugar no meu coração. Confesso: dependendo do ambiente, tinha até uma certa vergonha de falar que fazia Direito.

Apesar de ainda achar que nunca terei uma relação afetiva com o Largo de São Francisco, hoje, junto com a nostalgia trazida pelo dia da Peruada, veio uma sensação forte de gratidão.

Talvez seja a distância trazida pelo quase um ano de formada, talvez seja só uma alucinação leve provocada pelo calor, mas acho que finalmente posso afirmar sem mágoas que sou grata ao Direito por ter feito de mim quem eu sou.

Na São Francisco, aprendi que uma opinião não vale nada sem bons argumentos e que é importante saber se expor e se justificar. No Largo, entendi como funciona o Estado e compreendi que justiça e segurança jurídica são duas coisas bem diferentes. Foi lá que percebi que existe algo muito mais profundo que sustenta as desigualdades e que não é possível se indignar contra os frutos sem querer combater as raízes dessa árvore.

Por mais que eu tenha dificuldades de admitir, no Direito aprendi muito mais do que apenas quem eu não sou. Foi graças à militância constante e persistente do Dandara que, em cinco anos, eu passei de uma menina que achava que Feminismo era coisa do passado para uma mulher que entende o quanto é importante batalhar pela igualdade de gênero. Foi graças ao trabalho no Departamento Jurídico que eu passei a compreender plenamente a minha responsabilidade social perante os mais necessitados. E foi graças a muitos momentos vividos naquele pátio que eu aprendi o que é política e o que eu tenho a ver com tudo isso.

Por mais que tenham sido cinco anos muitos difíceis, a São Francisco me formou. Assim, do jeitinho que eu sou. E, pelo bem e pelo mal, tenho muito que agradecer a essa velha academia.

Não. Eu não queria estar pulando pelas ruas do centro hoje. Estou realmente muito feliz que esse tempo tenha acabado e que minha vida tenha andado pra frente, mas acho que o que eu quer é que hoje é a terceira sexta-feira de outubro.

Hoje, é Peruada, oba! Não importa o que aconteça, essa sempre será uma data a ser lembrada. E, no fundo, eu fico feliz por isso.

Na foto: Leo, meu veterano, Carol, minha caloura e eu, juntos com o Vitão, o eterno rei da Peruada, em 2010, o último ano em que o peru era de verdade.

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Quem quer dinheiro?

Existe um lugar não muito bonito que eu gosto de chamar de Confins do Negativo. Lá, sua conta bancaria parece sangrar de tão vermelha e o tempo entre o momento em que você passa o cartão de crédito e aquele aliviante “transação aprovada” é sempre maior do que o seu coração pode aguentar.

Apesar de não ser uma pessoa muito aventureira, durante um bom tempo da minha vida meus meses terminavam com um tour radical por essas terras onde abundam pães de queijo de almoço e idas a pé para economizar o dinheiro do táxi.

Ganhar pouco com certeza contribuía pra isso, mas a falta de prática em administrar meu próprio dinheiro foi sem dúvidas a principal culpada desses passeios forçados.

Graças ao Método Inês Lotufo de Controle de Gastos (falaremos mais sobre ele daqui a pouco), consegui abandonar os Confins do Negativo, contudo, essa recém chegada “vida adulta” trouxe algumas mudanças que têm voltado a complicar as minha vida financeira…

Seja pra conquistar o sonho do cafofo próprio, tirar umas férias bacanas ou ir estudar fora por um tempo, ao sair da faculdade, todo mundo quer juntar um dinheirinho. Por outro lado, você finalmente tem uma salário digno e não quer deixar de sair, experimentar um restaurante diferente ou ir naquele show bacana – que agora vai custar o dobro porque você não é mais estudante.

Resultado: pode até não faltar dim-dim, mas parece que nunca sobra o tanto que você gostaria pra dar aquele gás na poupança.

Diante disso, resolvi voltar a adotar o Método Inês Lotufo de Controle de Gastos e mais algumas medidas nada radicais pra conseguir economizar sem sofrer.

Se você está nos Confins do Negativo ou simplesmente não consegue fazer sobrar dinheiro no final do mês, espero que essas dicas te ajudem tanto quanto me ajudam!

Bora lá!


1. O Método Inês Lotufo de Controle de Gastos

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Eu tive uma sorte nessa vida: encontrar uma amiga que ama planilhas, a Inês.

Com alma de produtora, essa menina adora organizar, contabilizar e planejar e quando soube que eu estava nos Confins do Negativo dividiu comigo uma planilha que mudou minha vida.

O Método Inês Lotufo de Controle de Gastos é, na verdade, algo muito simples e amplamente recomendado por 9 entre 10 especialistas em finanças: anote TUDO que você gastar. Fazer isso por pelo menos uns 3 meses te torna mais consciente das suas despesas e automaticamente mais seletivo com onde você gasta seu dinheiro.

Existem aplicativos com essa função, cheios de recursos e cores que te ajudam a registrar seus gastos e receitas. Muitos economistas também propõe que você faça uma diferenciação entre despesas fixas e eventuais na hora de registrar, mas posso ser bem sincera? Pra mim, essas coisas só atrapalham e tornam mais difícil um processo que já não é fácil.

O que eu amo nessa tabela da Inês é justamente o fato dela ser muito simples. E quanto mais simples o aparato, menor a chance de eu arrumar desculpas do tipo “ah mas eu não entendi como funciona”, então melhor.

Mas isso é extremamente pessoal, viu?
Papel e caneta, bloco de notas do celular, aplicativo high-tech, o importante é encontrar um jeito de monitorar suas despesas com o qual você se sinta bem.

E pra quem quiser experimentar a planilha salvadora da Inês, é só clicar aqui.


2. Encare a realidade de frente

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Sabe aquela DR que você sabe que precisa ter, mas vive evitando por motivos de: é chato discutir a relação? Então, seu extrato bancário é a mesma coisa.

É horrível olhar pro seu histórico de gastos e ver o quanto você perdeu o controle e investiu onde não devia, especialmente se você está pendurado no negativo, mas não tem jeito: encarar a realidade é o primeiro passo para começar a lidar melhor com o seu dinheiro.

Instale o app do seu banco no celular e olhe para o seu saldo todos os dias. É muito importante saber em que pé está a sua conta bancária, principalmente se ela estiver no pé errado.

Isso também te ajuda a encontrar movimentações indevidas do banco que são mais comuns do que se imagina!

Eu sei. No começo é chato a beça olhar para aquela conta estraçalhada, mas, aos poucos, as coisas vão melhorando e logo menos você vai ficar muito feliz toda vez que admirar o seu extrato e ver o quanto progrediu. Eu juro!


3. Crédito não é complemento de renda

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Quando eu consegui meu primeiro estágio remunerado, tive que abrir uma conta em outro banco. Até então nunca tinha ganhado tanto dinheiro, mas não houve época da minha vida em que eu estivesse mais endividada. #DelíriosdeConsumodeBeckyBloomFeelings

Duas contas bancárias me ofereciam algo em torno de R$ 1400,00 de crédito que eu gastava sem dó, como se fosse parte do meu salário.

ERRO!

O Cheque Especial está aí pra te ajudar em alguma eventualidade, não pra ser algo recorrente na sua vida. A mesma coisa serve para o cartão de crédito. Não olhe para esses recursos como parte da sua renda e aprenda a viver com o quanto você ganha.

Você vai descobrir que precisa de bem menos pra ser feliz e, em uma sociedade que vive pra te impor necessidades que você não tem, essa consciência é extremamente libertadora.


4. Não se prive das coisas que você ama

4 coisas inacreditáveis sobre o Silvio Santos

Ao decidir juntar dinheiro, muita gente acha que deve cortar do dia-a-dia todas aquelas despesas com coisas bacanas e aparentemente supérfluas como jantares com os amigos e idas ao bar.

Olha, vai por mim, se você tirar da sua rotina tudo que custa dinheiro e te dá prazer essa sua jornada da economia vai durar menos que chuva de verão.

Pense no longo prazo. É mais importante você conseguir juntar um pouquinho todos os meses do que tentar virar o Tio Patinhas em uma semana e depois desencanar.

Se você mora em São Paulo, realmente vai ser difícil manter o mesmo ritmo de sempre e ainda economizar, mas existem algumas coisas que você pode tentar fazer pra não deixar seus passeios tão custosos.

A primeira delas é experimentar lugares novos. O SP Honesta é um site colaborativo que reúne várias opções de bares e restaurantes com bons preços. Além disso, eu mesma assumo o compromisso de fazer uma listinha aqui com lugares bacanas e baratinhos que curto (só não faço agora porque esse post já tá ficando gigaaaaante).

Outra coisa que tenho descoberto ser super eficiente na hora de economizar, é investir mais na qualidade do que na quantidade das saídas. Aqui em Sampa, qualquer risotinho mambembe já tá custando os olhos da cara, então às vezes vale a pena ter um fim de semana mais caseiro pra, no outro, investir em uma saída mais bacanuda que vai deixar feliz por muito mais tempo.


5. Dinheiro inesperado tem que ser guardado

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Você tem uma receita mensal e é com ela que você tem que ser capaz de viver.

Fez um freela? Ganhou dinheiro da vó? Finalmente recebeu aquele prêmio da Tele Sena? Pega e coloca direto na poupança. Vai fazer uma diferença danada!

Além disso, é legal separar uma parte do seu salario para colocar lá todo mês também. Não precisa ser nenhum fortuna, o que vai contar aqui é a constância. É criar o hábito de fazer isso sempre.

Os especialistas recomendam que o depósito na poupança seja o primeiro gasto do mês. Se você como eu ainda não tem ideia de quanto vai poder separar para isso, minha sugestão é adotar o Método Inês Lotufo de Controle de Gastos por pelo menos um mês e então, com muito mais noção de como você gasta seu dinheiro, estipular esse valor a ser guardado.

Ufa!
É isso, gente. São essas as coisas que tenho tentado fazer e que sinto na prática que me ajudam a ter mais controle do meu dinheiro sem sofrer.

Acho que, no fundo, tudo se resume a um grande processo de tomada de consciência e desapego. Mas e vocês? Como costumam administrar suas finanças?

Compartilha o segredo do sucesso aí, vai! ; )

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Casar ou comprar um bicicleta?

– What are you passionate about?

– Could you repeat that please?

– Sure! What are you passionate about?

Dessa vez ele falou bem devagar, quase separando uma sílaba da outra e eu não podia mais me fazer de desentendida.

O contexto era uma conversa sobre carreira e profissão, dessas que parecem perseguir a gente nessa época da vida, e meu interlocutor era o Anthony, um colega americano do meu irmão.

A diferença entre essa conversa e todas as outras que eu já tinha participado sobre o tema é que o Anthony não estava interessado nas minhas escolhas e objetivos profissionais, ele queria que eu falasse sobre algo anterior a tudo isso. Ele queria saber das minhas paixões, do que fazia meu olho brilhar e não onde eu pretendia aplicar a minha força de trabalho nos próximos meses.

Muito acostumada a falar de “próximos passos” e do que eu “gostaria de fazer da vida”, simplesmente fiquei sem saber o que responder.

Qual era a minha paixão?

Respondi alguma coisa sobre como acreditava que boas histórias mudavam o mundo e como gostaria de poder comunicá-las de alguma forma. Tentei ser o mais convincente possível, mas, no fundo, estava bem insegura achando aquela minha resposta muito genérica e sem valor. Tinha certeza que, a qualquer momento, o gringo ia virar pra mim e encher a boca pra falar com um sotaque carregado: “Grande shit, hein?”.

Ao contrário do que eu esperava, o Anthony ficou empolgado com o que eu dizia e me incentivou bastante a correr atrás daquela paixão. Disse que no mundo de hoje, histórias podem ser contadas de várias formas e que isso era profundamente desafiador.

Fiquei muito feliz com a reação dele, mas, hoje, algo me diz que se eu respondesse que minha grande paixão era pão, ele reagiria exatamente da mesma forma.

Para ele, independentemente da utilidade, qualquer paixão era válida pelo simples fato de ser capaz de aquecer o coraçãozinho de alguém. Para mim, o valor de um afeto era determinado pela sua possibilidade de transformação em oportunidade de negócio.

Triste, eu sei, mas até então não tinha me dado conta disso nem de quanto eu havia interiozado essa postura ao longo da infância e adolescência.

Enquanto eu passei no vestibular por conta de uma prova objetiva de conteúdo fechado, o Anthony entrou em uma das melhores faculdades do país dele por conta de um processo seletivo que levou em conta suas notas no colégio, mas também todas as atividades extracurriculares as quais ele se dedicou.

Para Harvard, paixões como o amor que ele tem pela fotografia e por documentários poderiam fazer dele um engenheiro melhor. Para a USP, a única coisa que contava era se eu sabia as formações geológicas da Europa Ocidental e olhe lá…

Mas eu não estou falando só do vestibular não. Ao longo da vida, sinto que inconscientemente somos incentivados a abrir espaço em nossa rotina para as coisas que podem “nos levar a algum lugar”, enquanto nossas paixões, aquelas coisas que fazem nossos olhos brilharem, mesmo que não saibamos explicar muito bem porque, são progressivamente enterradas sob o peso da utilidade.

Nessa toada, chega a vida adulta, esse momento mágico em que finalmente temos a liberdade de investir nosso tempo e dinheiro onde quisermos e sabe o que acontece? A gente não tem a menor ideia do que fazer.

Casar ou comprar uma bicicleta?

Na dúvida, acabamos repetindo o padrão que adotamos a vida inteira e nos conformamos em ficar até mais tarde no escritório ou em fazer uma pós só pra alcançar mais rápido aquele cargo que nem sabemos se queremos.

Outro dia me vi nessa situação…

Fazer um curso de história da arte ou um workshop bacanudo em branding?

De repente, a voz do Anthony falando devagar e quase separando as sílabas soou na minha mente:

What are you passionate about?

 

Fiquei com a arte.

E esse foi meu primeiro passo para aprender a dar valor ao que realmente importa.