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O bolo e o tempo

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Fazer bolo é uma ciência complexa. E os bolos da minha vó são dignos de um Nobel. Fofos e molhadinhos, são daqueles para tomar com café. Sem cobertura ou muita frescura, eles derretem na boca e, pelo menos pra mim, gritam infância a cada pedaço.

Um dia pedi pra ela me ensinar a fazer uma torta de banana. O começo foi simples: separa os ingredientes, corta a banana, bate o ovo com a manteiga, junta a farinha…

- O que eu faço agora?
– Coloca a clara em neve e mistura.
– Ok.
– Não bate! Mistura!
– Mas qual a diferença?
– Misturar é bater com calma.

Assar um bolo tem dessas sutilezas. Um fogão aberto fora do tempo certo ou um vento encanado na hora errada podem ser fatais. E, segundo Dona Lu, bater ao invés de misturar pode ser decisivo para a fofura da sua obra.

Para os ansiosos, como eu, esse tipo de coordenada é um horror. A gente quer que o bolo fique pronto logo. E que fique perfeito, de preferência. Esse negócio de esperar e misturar não é a nossa praia, mas é o que fazer um bolo de vó exige.

Isso tudo me fez pensar em como existem uns ofícios de outra época que são muito desafiadores para os habitantes da modernidade: tricotar, revelar fotos, ouvir um disco inteiro…

Tudo isso exige uma calma e uma paz de espírito que era óbvia para a geração da minha vó, mas que, pra gente, é tipo animal em extinção.

Não. Não é o tempo que está passando mais rápido.
É só o medo de perder tempo que é maior.

E isso vem ficando cada vez mais claro pra mim como algo que preciso aprender a controlar.

Tenho uma dificuldade gigantesca de parar. Se tiro um final de semana para ficar em casa e dormir, por exemplo, sou invadida por uma sensação de culpa sem tamanho: como assim eu não estou pesquisando aquele curso em Nova Deli? Os textos do blog não vão se escrever sozinhos, hein? É assim que você pretende construir uma carreira?

O diabinho da auto-cobrança perde absolutamente todas as oportunidades de ficar calado.

No meio de tudo isso, as redes sociais não ajudam. Todo mundo parece estar sempre um passo (ou muitos) a frente de você. Se na época da minha vó a grama do vizinho parecia mais verde, hoje, o vizinho sempre parece estar jantando em lugares mais legais e viajando mais do que você.

Ainda estou bem longe de descobrir a receita para superar esses obstáculos, mas desconfio que a saída para uma vida mais tranquila seja a mesma do bolo fofinho da minha vó: misturar, não bater.

Os ingredientes estão aí. O bolo vai ficar pronto no tempo dele. Não precisa ter pressa. E, enquanto essa hora não chega, o jeito é curtir o processo. Colocar uma música, misturar as coisas com calma e nunca abrir o fogão antes da hora. Se o bolo solar, não tem problema: sempre tem mais farinha na dispensa.

 

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Hoje é a terceira sexta-feira de outubro!

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Hoje, como em todos os outros dias da semana, eu acordei, tomei café e me arrumei para sair de casa.

Não tinha fantasia me esperando, nem maquiagem extravagante no look do dia. A cerveja não começou a entrar no meu organismo antes das 11h da manhã e meu único compromisso na rua era uma consulta médica. Não teve Gretchen, maria-mole e nem esfiha do Habibs sentada em um dos calçadões do centro. Depois de cinco anos, essa foi a primeira terceira sexta-feira de outubro em que não teve Peruada.

Reza a lenda (e, como toda lenda, existem várias versões dessa história) que há muitos anos atrás, indignados com a corrupção de um prefeito paulistano que criva perus, os alunos da São Francisco roubaram um dos animais mais premiados do político e, em um ato bem humorado de protesto, convidaram o dito cujo para um jantar em que o peru era o prato principal.

Assim nasceu a Peruada, uma espécie de festa/carnaval fora de época em que os estudantes de Direito da USP vão às ruas fazer um protesto etílico-circense contra os absurdos políticos e sociais que acontecem no país e no mundo.

Com o passar dos anos, a festa foi se descaracterizando e, hoje, é tudo muito mais parecido com um grande carnaval fora de época mesmo. Olhando de fora, é até um pouco absurdo o fato de estudantes ocuparem as ruas do centro e transtornarem a vida de tantas pessoas em plena sexta-feira para fazer uma festa. Mas quando você está lá no meio, é difícil não achar aquela maluquice divertida.

Tenho boas lembranças das minhas Peruadas e talvez, por isso, hoje o dia tenha amanhecido com alguns toques de nostalgia. Durante muito tempo, eu me esforcei para negar a São Francisco na minha vida. Com a crise profissional e a mudança de carreira, veio uma necessidade grande de criticar aquele espaço, falar que ele não tinha nada a ver comigo e reafirmar a todo tempo o quanto aquela faculdade não tinha um lugar no meu coração. Confesso: dependendo do ambiente, tinha até uma certa vergonha de falar que fazia Direito.

Apesar de ainda achar que nunca terei uma relação afetiva com o Largo de São Francisco, hoje, junto com a nostalgia trazida pelo dia da Peruada, veio uma sensação forte de gratidão.

Talvez seja a distância trazida pelo quase um ano de formada, talvez seja só uma alucinação leve provocada pelo calor, mas acho que finalmente posso afirmar sem mágoas que sou grata ao Direito por ter feito de mim quem eu sou.

Na São Francisco, aprendi que uma opinião não vale nada sem bons argumentos e que é importante saber se expor e se justificar. No Largo, entendi como funciona o Estado e compreendi que justiça e segurança jurídica são duas coisas bem diferentes. Foi lá que percebi que existe algo muito mais profundo que sustenta as desigualdades e que não é possível se indignar contra os frutos sem querer combater as raízes dessa árvore.

Por mais que eu tenha dificuldades de admitir, no Direito aprendi muito mais do que apenas quem eu não sou. Foi graças à militância constante e persistente do Dandara que, em cinco anos, eu passei de uma menina que achava que Feminismo era coisa do passado para uma mulher que entende o quanto é importante batalhar pela igualdade de gênero. Foi graças ao trabalho no Departamento Jurídico que eu passei a compreender plenamente a minha responsabilidade social perante os mais necessitados. E foi graças a muitos momentos vividos naquele pátio que eu aprendi o que é política e o que eu tenho a ver com tudo isso.

Por mais que tenham sido cinco anos muitos difíceis, a São Francisco me formou. Assim, do jeitinho que eu sou. E, pelo bem e pelo mal, tenho muito que agradecer a essa velha academia.

Não. Eu não queria estar pulando pelas ruas do centro hoje. Estou realmente muito feliz que esse tempo tenha acabado e que minha vida tenha andado pra frente, mas acho que o que eu quer é que hoje é a terceira sexta-feira de outubro.

Hoje, é Peruada, oba! Não importa o que aconteça, essa sempre será uma data a ser lembrada. E, no fundo, eu fico feliz por isso.

Na foto: Leo, meu veterano, Carol, minha caloura e eu, juntos com o Vitão, o eterno rei da Peruada, em 2010, o último ano em que o peru era de verdade.

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Quem quer dinheiro?

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Existe um lugar não muito bonito que eu gosto de chamar de Confins do Negativo. Lá, sua conta bancaria parece sangrar de tão vermelha e o tempo entre o momento em que você passa o cartão de crédito e aquele aliviante “transação aprovada” é sempre maior do que o seu coração pode aguentar.

Apesar de não ser uma pessoa muito aventureira, durante um bom tempo da minha vida meus meses terminavam com um tour radical por essas terras onde abundam pães de queijo de almoço e idas a pé para economizar o dinheiro do táxi.

Ganhar pouco com certeza contribuía pra isso, mas a falta de prática em administrar meu próprio dinheiro foi sem dúvidas a principal culpada desses passeios forçados.

Graças ao Método Inês Lotufo de Controle de Gastos (falaremos mais sobre ele daqui a pouco), consegui abandonar os Confins do Negativo, contudo, essa recém chegada “vida adulta” trouxe algumas mudanças que têm voltado a complicar as minha vida financeira…

Seja pra conquistar o sonho do cafofo próprio, tirar umas férias bacanas ou ir estudar fora por um tempo, ao sair da faculdade, todo mundo quer juntar um dinheirinho. Por outro lado, você finalmente tem uma salário digno e não quer deixar de sair, experimentar um restaurante diferente ou ir naquele show bacana – que agora vai custar o dobro porque você não é mais estudante.

Resultado: pode até não faltar dim-dim, mas parece que nunca sobra o tanto que você gostaria pra dar aquele gás na poupança.

Diante disso, resolvi voltar a adotar o Método Inês Lotufo de Controle de Gastos e mais algumas medidas nada radicais pra conseguir economizar sem sofrer.

Se você está nos Confins do Negativo ou simplesmente não consegue fazer sobrar dinheiro no final do mês, espero que essas dicas te ajudem tanto quanto me ajudam!

Bora lá!


1. O Método Inês Lotufo de Controle de Gastos

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Eu tive uma sorte nessa vida: encontrar uma amiga que ama planilhas, a Inês.

Com alma de produtora, essa menina adora organizar, contabilizar e planejar e quando soube que eu estava nos Confins do Negativo dividiu comigo uma planilha que mudou minha vida.

O Método Inês Lotufo de Controle de Gastos é, na verdade, algo muito simples e amplamente recomendado por 9 entre 10 especialistas em finanças: anote TUDO que você gastar. Fazer isso por pelo menos uns 3 meses te torna mais consciente das suas despesas e automaticamente mais seletivo com onde você gasta seu dinheiro.

Existem aplicativos com essa função, cheios de recursos e cores que te ajudam a registrar seus gastos e receitas. Muitos economistas também propõe que você faça uma diferenciação entre despesas fixas e eventuais na hora de registrar, mas posso ser bem sincera? Pra mim, essas coisas só atrapalham e tornam mais difícil um processo que já não é fácil.

O que eu amo nessa tabela da Inês é justamente o fato dela ser muito simples. E quanto mais simples o aparato, menor a chance de eu arrumar desculpas do tipo “ah mas eu não entendi como funciona”, então melhor.

Mas isso é extremamente pessoal, viu?
Papel e caneta, bloco de notas do celular, aplicativo high-tech, o importante é encontrar um jeito de monitorar suas despesas com o qual você se sinta bem.

E pra quem quiser experimentar a planilha salvadora da Inês, é só clicar aqui.


2. Encare a realidade de frente

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Sabe aquela DR que você sabe que precisa ter, mas vive evitando por motivos de: é chato discutir a relação? Então, seu extrato bancário é a mesma coisa.

É horrível olhar pro seu histórico de gastos e ver o quanto você perdeu o controle e investiu onde não devia, especialmente se você está pendurado no negativo, mas não tem jeito: encarar a realidade é o primeiro passo para começar a lidar melhor com o seu dinheiro.

Instale o app do seu banco no celular e olhe para o seu saldo todos os dias. É muito importante saber em que pé está a sua conta bancária, principalmente se ela estiver no pé errado.

Isso também te ajuda a encontrar movimentações indevidas do banco que são mais comuns do que se imagina!

Eu sei. No começo é chato a beça olhar para aquela conta estraçalhada, mas, aos poucos, as coisas vão melhorando e logo menos você vai ficar muito feliz toda vez que admirar o seu extrato e ver o quanto progrediu. Eu juro!


3. Crédito não é complemento de renda

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Quando eu consegui meu primeiro estágio remunerado, tive que abrir uma conta em outro banco. Até então nunca tinha ganhado tanto dinheiro, mas não houve época da minha vida em que eu estivesse mais endividada. #DelíriosdeConsumodeBeckyBloomFeelings

Duas contas bancárias me ofereciam algo em torno de R$ 1400,00 de crédito que eu gastava sem dó, como se fosse parte do meu salário.

ERRO!

O Cheque Especial está aí pra te ajudar em alguma eventualidade, não pra ser algo recorrente na sua vida. A mesma coisa serve para o cartão de crédito. Não olhe para esses recursos como parte da sua renda e aprenda a viver com o quanto você ganha.

Você vai descobrir que precisa de bem menos pra ser feliz e, em uma sociedade que vive pra te impor necessidades que você não tem, essa consciência é extremamente libertadora.


4. Não se prive das coisas que você ama

4 coisas inacreditáveis sobre o Silvio Santos

Ao decidir juntar dinheiro, muita gente acha que deve cortar do dia-a-dia todas aquelas despesas com coisas bacanas e aparentemente supérfluas como jantares com os amigos e idas ao bar.

Olha, vai por mim, se você tirar da sua rotina tudo que custa dinheiro e te dá prazer essa sua jornada da economia vai durar menos que chuva de verão.

Pense no longo prazo. É mais importante você conseguir juntar um pouquinho todos os meses do que tentar virar o Tio Patinhas em uma semana e depois desencanar.

Se você mora em São Paulo, realmente vai ser difícil manter o mesmo ritmo de sempre e ainda economizar, mas existem algumas coisas que você pode tentar fazer pra não deixar seus passeios tão custosos.

A primeira delas é experimentar lugares novos. O SP Honesta é um site colaborativo que reúne várias opções de bares e restaurantes com bons preços. Além disso, eu mesma assumo o compromisso de fazer uma listinha aqui com lugares bacanas e baratinhos que curto (só não faço agora porque esse post já tá ficando gigaaaaante).

Outra coisa que tenho descoberto ser super eficiente na hora de economizar, é investir mais na qualidade do que na quantidade das saídas. Aqui em Sampa, qualquer risotinho mambembe já tá custando os olhos da cara, então às vezes vale a pena ter um fim de semana mais caseiro pra, no outro, investir em uma saída mais bacanuda que vai deixar feliz por muito mais tempo.


5. Dinheiro inesperado tem que ser guardado

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Você tem uma receita mensal e é com ela que você tem que ser capaz de viver.

Fez um freela? Ganhou dinheiro da vó? Finalmente recebeu aquele prêmio da Tele Sena? Pega e coloca direto na poupança. Vai fazer uma diferença danada!

Além disso, é legal separar uma parte do seu salario para colocar lá todo mês também. Não precisa ser nenhum fortuna, o que vai contar aqui é a constância. É criar o hábito de fazer isso sempre.

Os especialistas recomendam que o depósito na poupança seja o primeiro gasto do mês. Se você como eu ainda não tem ideia de quanto vai poder separar para isso, minha sugestão é adotar o Método Inês Lotufo de Controle de Gastos por pelo menos um mês e então, com muito mais noção de como você gasta seu dinheiro, estipular esse valor a ser guardado.

Ufa!
É isso, gente. São essas as coisas que tenho tentado fazer e que sinto na prática que me ajudam a ter mais controle do meu dinheiro sem sofrer.

Acho que, no fundo, tudo se resume a um grande processo de tomada de consciência e desapego. Mas e vocês? Como costumam administrar suas finanças?

Compartilha o segredo do sucesso aí, vai! ; )

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Casar ou comprar um bicicleta?

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- What are you passionate about?

- Could you repeat that please?

- Sure! What are you passionate about?

Dessa vez ele falou bem devagar, quase separando uma sílaba da outra e eu não podia mais me fazer de desentendida.

O contexto era uma conversa sobre carreira e profissão, dessas que parecem perseguir a gente nessa época da vida, e meu interlocutor era o Anthony, um colega americano do meu irmão.

A diferença entre essa conversa e todas as outras que eu já tinha participado sobre o tema é que o Anthony não estava interessado nas minhas escolhas e objetivos profissionais, ele queria que eu falasse sobre algo anterior a tudo isso. Ele queria saber das minhas paixões, do que fazia meu olho brilhar e não onde eu pretendia aplicar a minha força de trabalho nos próximos meses.

Muito acostumada a falar de “próximos passos” e do que eu “gostaria de fazer da vida”, simplesmente fiquei sem saber o que responder.

Qual era a minha paixão?

Respondi alguma coisa sobre como acreditava que boas histórias mudavam o mundo e como gostaria de poder comunicá-las de alguma forma. Tentei ser o mais convincente possível, mas, no fundo, estava bem insegura achando aquela minha resposta muito genérica e sem valor. Tinha certeza que, a qualquer momento, o gringo ia virar pra mim e encher a boca pra falar com um sotaque carregado: “Grande shit, hein?”.

Ao contrário do que eu esperava, o Anthony ficou empolgado com o que eu dizia e me incentivou bastante a correr atrás daquela paixão. Disse que no mundo de hoje, histórias podem ser contadas de várias formas e que isso era profundamente desafiador.

Fiquei muito feliz com a reação dele, mas, hoje, algo me diz que se eu respondesse que minha grande paixão era pão, ele reagiria exatamente da mesma forma.

Para ele, independentemente da utilidade, qualquer paixão era válida pelo simples fato de ser capaz de aquecer o coraçãozinho de alguém. Para mim, o valor de um afeto era determinado pela sua possibilidade de transformação em oportunidade de negócio.

Triste, eu sei, mas até então não tinha me dado conta disso nem de quanto eu havia interiozado essa postura ao longo da infância e adolescência.

Enquanto eu passei no vestibular por conta de uma prova objetiva de conteúdo fechado, o Anthony entrou em uma das melhores faculdades do país dele por conta de um processo seletivo que levou em conta suas notas no colégio, mas também todas as atividades extracurriculares as quais ele se dedicou.

Para Harvard, paixões como o amor que ele tem pela fotografia e por documentários poderiam fazer dele um engenheiro melhor. Para a USP, a única coisa que contava era se eu sabia as formações geológicas da Europa Ocidental e olhe lá…

Mas eu não estou falando só do vestibular não. Ao longo da vida, sinto que inconscientemente somos incentivados a abrir espaço em nossa rotina para as coisas que podem “nos levar a algum lugar”, enquanto nossas paixões, aquelas coisas que fazem nossos olhos brilharem, mesmo que não saibamos explicar muito bem porque, são progressivamente enterradas sob o peso da utilidade.

Nessa toada, chega a vida adulta, esse momento mágico em que finalmente temos a liberdade de investir nosso tempo e dinheiro onde quisermos e sabe o que acontece? A gente não tem a menor ideia do que fazer.

Casar ou comprar uma bicicleta?

Na dúvida, acabamos repetindo o padrão que adotamos a vida inteira e nos conformamos em ficar até mais tarde no escritório ou em fazer uma pós só pra alcançar mais rápido aquele cargo que nem sabemos se queremos.

Outro dia me vi nessa situação…

Fazer um curso de história da arte ou um workshop bacanudo em branding?

De repente, a voz do Anthony falando devagar e quase separando as sílabas soou na minha mente:

What are you passionate about?

 

Fiquei com a arte.

E esse foi meu primeiro passo para aprender a dar valor ao que realmente importa.

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Um “alô” do passado

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Eu tenho um caixa de recordações. Nela, eu guardo alguns tesouros como o último cartão de aniversário que a Vó Hilda me escreveu, ingressos de shows que me marcaram e até a bandeira em que me enrolei durante a primeira manifestação da qual participei.

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PASSADO, Eu. Editora do Colégio São Luís.

Há uns dois atrás, enquanto manuseava esses objetos e passeava pelas minhas memórias – coisa que faço pelo menos uma vez por ano – encontrei um envelope lacrado que continha um caderninho que produzimos no terceiro colegial com o registro de como e onde nos imaginávamos dali a cinco anos.

Em 2007, eu achava que em 2012 estaria prestes a casar e a ser efetivada em algum escritório de advocacia. De alguma forma, eu imaginava que já estaria juntando dinheiro para sair de casa e que teria boa parte das questões da vida resolvidas.

Ha.
Haha.
Hahaha.

Mas a gente é muito besta aos 17 anos, né?

Bem diferente do que eu havia imaginado, aos 22 anos eu havia acabado de abandonar um estágio e assumir minha crise com o Direito, logo, minha única certeza era terminar o mês no negativo.

Mas no final do caderninho, depois de todas essas alucinações leves geradas, desconfio eu, por uma overdose de ingenuidade, havia uns 5 parágrafos de extrema lucidez, uma carta que meu passado tinha escrito com todo o carinho para que eu lesse no futuro…

Má,
Como vai a vida?
Espero que esteja tudo bem, mas se não estiver nunca me culpe por isso.
As escolhas não são imutáveis, muito pelo contrário, você tem a capacidade de revertê-las.
Se estiver tudo ótimo, fico feliz e peço para que você agradeça sempre. Tudo é graça. Não podemos esquecer disso…
Mais cinco anos estão aí na sua frente. Boa sorte. Você pode fazer com eles tudo que quiser.
Beijos,
Do seu passado.

Agora me explica: como que a mesma pessoa que acha que vai conseguir construir uma carreira sólida em 5 anos de faculdade escreve um negócio desse?!

O inconsciente é realmente uma coisa muito louca… acho que, de alguma forma, eu já sabia que teria que revisitar minhas escolhas e que, quando essa hora chegasse, o que eu mais precisaria ouvir era o meu passado me libertando de tudo aquilo que eu não me achava capaz de abrir mão.

3 x 4 = 2007 x 2012

Nesse princípio de vida adulta, não são poucas as vezes em que fico ansiosa com o futuro. Nessas horas, eu tento me lembrar da sabedoria desse meu eu muy louco de 17 anos: a gente sempre tem mais 5 anos a nossa frente. E não dá pra ficar deixando o passado ditar nosso futuro. No máximo, ele determina nosso presente e olhe lá. Daqui pra frente, a vida é sua. Do seu presente.

A vida é um presente. Tá entendendo?
Não dá pra ficar gastando ela tentando honrar escolhas passadas.
Você quer ter razão ou quer ser feliz? Me diz?

Era praticamente isso que o meu passado estava me dizendo naquela carta…

Muita gente fala que eu fui corajosa de pular fora do barco do Direito, mas, na real, meu único mérito nessa história foi perceber que, mais importante do que me agarrar ao leme de um Titanic profissional, era não morrer afogada no mar da minha própria existência.

Apesar dos meus medos e inseguranças tentarem me convencer do contrário, uma carreira como advogada era uma alternativa tão incerta quanto qualquer outra. Não adianta: qualquer sensação de controle sobre o futuro é falsa. Quando me dei conta disso, pular para o bote salva-vidas foi mera consequência! Joguei as expectativas fora, pra não pesar, e fui!

Escolhi não ter razão. Optei por mudar de ideia.
E quer saber uma coisa? Foi a melhor coisa que eu fiz.

Não porque deu tudo super certo e desde então eu já consegui correr atrás do prejuízo e conquistar o sonho da casa própria, mas porque eu aprendi uma coisa que tenho convicção de que vai me valer pra sempre: des-pren-di-men-to.

Assim: com todas as sílabas soando uma a uma. Com todas as pausas que essa palavrinha merece. Desprendimento.

Desprendimento do passado.
Desprendimento das expectativas.
Desprendimento das escolhas.

E não há melhor arma contra a ansiedade do que o desprendimento.

A gente vive se apegando a um monte de coisas: ego, carreira, projetos, dinheiro, sonhos nossos, sonhos dos outros para nós, ideias pré-concebidas de amor, sucesso e felicidade, mas, de tudo isso, o que realmente contribui para a nossa felicidade?

Algum dia me disseram que a gente tinha que crescer, entrar na faculdade e estudar bastante para ser “alguém na vida”, como se a minha existência, a minha afirmação como indivíduo estivesse condicionada a essa sucessão já estabelecida de fatos.

Durante muito tempo eu aceitei tudo isso. E estudei muito para ser “alguém na vida”. Escolhi a carreira que forma “alguéns” distintos, passei na faculdade onde todos querem ser “alguém”, consegui um estágio no escritório onde ser “alguém” era requisito. Mas quem disse que isso bastou?

A cada passo que eu dava tentando ser alguém eu esquecia uma coisa fundamental: ser eu mesma.

Quando me dei conta disso, recalcular a rota deixou de ser algo difícil que exigia coragem e passou a ser a coisa mais natural e orgânica que eu poderia fazer. Foi fluído, tranquilo e aliviante, como chegar em casa tirar o sapato depois de um dia cansativo.

(Na verdade, foi literalmente tirar o sapato depois de um dia de trabalho, porque depois daquele estágio nunca mais tive que trabalhar de salto, graçasadeus!)

Eu escolhi me desapegar do sonho de “ser alguém” e abraçar os desejos e vontades de quem eu já era.

E sabe qual é a beleza de tudo isso?
Mudar de caminho é tipo andar de bicicleta, a gente nunca esquece.

Se precisar, eu recalculo de novo.
E de novo.
E de novo.

A gente tem sempre mais 5 anos pela frente e até os 100 anos tem chão!

O ser humano é complexo demais pra querer ser uma coisa só a vida inteira. E a carta do meu passado está guardada pra me lembrar disso, sempre que eu precisar.

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O que eu aprendi com a Shakira

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Ontem estava assistindo a nova temporada de The Voice. Era uma das batalhas mais esperadas da noite: uma dupla meio folk contra um rapaz de meia idade e timbre sen-sa-cio-nal. O treinador, Adam Lavigne, escolheu o clássico “Stuck in the Middle With You” da banda Stealers Wheels.

Logo após a apresentação, todos os jurados falaram um pouquinho sobre o que acharam dos cantores e foi aí que a Shakira em sua infinita sabedoria me trouxe uma lição de vida que superou Waka Waka em genialidade.

Antes de elogiar os cantores, a diva virou para Adam Lavingne e disse “Adorei a escolha da música! Não conhecia essa canção, mas achei ótima e super animada”. Inconformado, Adam respondeu “Essa música não existe na Colômbia?!”. “Nunca ouvi, mas temos outras coisas na Colômbia”.

Touché.
Suck this MANGO, sociedade!

Ali, ao vivo, em rede nacional, Shakira não só teve a coragem de admitir que não conhecia um dos clássicos do rock americano dos anos 1970, como fez isso com a tranquilidade de quem sabe que isso não chega nem perto de diminuir quem ela é como artista e pessoa.

Quantos filmes você já comentou sem nunca ter assistido?
Quantos livros você disse que leu sem nunca ter aberto?
Quantas bandas você finge que conhece, mas nunca ouviu falar?

Relaxa. Não julgo. Já fiz muito disso… inclusive, conheço todas as técnicas do tipo “putz, não lembro… faz tanto tempo que li”.

No mundo da referência, quem viu mais filmes iraquianos é rei e, às vezes, a gente acaba se deixando levar por isso. O resultado? Uma puta crise de autoestima somada a perda reiterada de momentos de troca e aprendizagem com o outro.

Quando ficamos com vergonha de falar “não sei”, automaticamente perdemos a chance de aprender algo novo e quem sai perdendo nessa história é a gente que fica estagnado no mesmo lugar contemplando a própria vergonha com a sensação de que somos uma farsa.

Em algum lugar no meio do caminho da sociedade em que só os sucessos são compartilhados, virou feio não saber. Algo triste e típico de uma realidade que não tolera o erro, feita de pessoas que querem dominar as conversas e protagonizar tudo o tempo todo.

No trabalho, você quer se destacar.
Na mesa do bar, você quer ser o mais culto.
No Facebook, você quer ter a melhor foto em uma exposição do MIS.

Na boa, quem criou esse placar doentio?

Quanto mais rápido a gente erra, mais depressa a gente acerta. Esse devia ser o lema da vida e não uma perfeição assustadora impossível de ser alcançada.

O fato de você não saber alguma coisa não te torna pior. Muito pelo contrário: assumir a ignorância pode te ajudar a crescer. Além disso, da mesma forma como na Colômbia existem outras coisas, você também é muito maior do que as coisas que não sabe ou não conhece.

Da próxima vez que alguém falar daquela banda finlandesa incrível, experimenta falar “não conheço”. Dê a voz para o outro. A conversa que vai vir depois disso vai ser bem mais saborosa. Tenho certeza.

Se a Shakira pode, por que a gente não poderia?

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Jogando meu corpo no mundo

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No dia 19 de dezembro de 2013 foi minha colação de grau.
No dia 19 de dezembro de 2013 foi dada a largada.

A corrida?

Aquela que a gente começa quando sai da faculdade.

“Bem-vinda, liberdade” é o que gritamos entre uma foto e outra, no meio daquele monte de eventos, mas a ficha do que isso significa de verdade só vai cair alguns dias depois, quando a ressaca gerada pela quantidade gigantesca de vodca ingerida no baile de formatura já tiver passado a tempos.

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Baila comigo – Festa de Formatura – 15/12/13

Aos poucos vamos percebendo que não é só à liberdade que damos boas vindas. Quando deixamos de ser estudantes, várias coisas mudam na nossa vida e, ao mesmo tempo que nos despedimos da meia entrada no cinema, recebemos uma quantidade absurda de novos desafios e vontades com os quais nem sempre sabemos lidar.

Não me entendam mal! Acho esse momento único e profundamente libertador, mas um tanto assustador e desafiador em muitos aspectos também.

A gente fica meio sem chão porque, de repente, parece que não sabemos mais o que vem pela frente. A verdade é que nunca soubemos, mas sem a possibilidade de responder “estou estudando”quando aquela tia chata te perguntar o que você está fazendo com a sua vida, as inseguranças ganham outra dimensão.

Ao mesmo tempo em que me dava conta disso tudo, conheci a Kalina Juzwiak e o Marcos Korody, um casal muito bacana que decidiu morar junto e criou o blog comTijolo para relatar as experiências e desafios de se construir um lar.

Inspirada por essa iniciativa incrível que está alimentando a rede com um monte de conteúdo bacana sobre a construção de um estilo de vida no qual acredito muito, resolvi criar a minha própria página. Afinal, na era digital, todo mundo tem seu lugar ao sol e no WordPress também.

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O dia em que virei bacharela – Colação de Grau – 19/12/13

Aqui, pretendo relatar um pouco como tem sido a minha experiência nesse começo de vida adulta.

Os desafios são muitos. Começam em construir uma carreira no Jornalismo sendo formada em Direito e se multiplicam até chegar na dificuldade eterna de administrar tempo e dinheiro em uma cidade como São Paulo.

Pois é… a corrida é longa, mas algo me diz que nessa maratona tem mais gente do que na São Silvestre, então vamos juntos?

Vai ser legal a beça! : )