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Um “alô” do passado

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Eu tenho um caixa de recordações. Nela, eu guardo alguns tesouros como o último cartão de aniversário que a Vó Hilda me escreveu, ingressos de shows que me marcaram e até a bandeira em que me enrolei durante a primeira manifestação da qual participei.

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PASSADO, Eu. Editora do Colégio São Luís.

Há uns dois atrás, enquanto manuseava esses objetos e passeava pelas minhas memórias – coisa que faço pelo menos uma vez por ano – encontrei um envelope lacrado que continha um caderninho que produzimos no terceiro colegial com o registro de como e onde nos imaginávamos dali a cinco anos.

Em 2007, eu achava que em 2012 estaria prestes a casar e a ser efetivada em algum escritório de advocacia. De alguma forma, eu imaginava que já estaria juntando dinheiro para sair de casa e que teria boa parte das questões da vida resolvidas.

Ha.
Haha.
Hahaha.

Mas a gente é muito besta aos 17 anos, né?

Bem diferente do que eu havia imaginado, aos 22 anos eu havia acabado de abandonar um estágio e assumir minha crise com o Direito, logo, minha única certeza era terminar o mês no negativo.

Mas no final do caderninho, depois de todas essas alucinações leves geradas, desconfio eu, por uma overdose de ingenuidade, havia uns 5 parágrafos de extrema lucidez, uma carta que meu passado tinha escrito com todo o carinho para que eu lesse no futuro…

Má,
Como vai a vida?
Espero que esteja tudo bem, mas se não estiver nunca me culpe por isso.
As escolhas não são imutáveis, muito pelo contrário, você tem a capacidade de revertê-las.
Se estiver tudo ótimo, fico feliz e peço para que você agradeça sempre. Tudo é graça. Não podemos esquecer disso…
Mais cinco anos estão aí na sua frente. Boa sorte. Você pode fazer com eles tudo que quiser.
Beijos,
Do seu passado.

Agora me explica: como que a mesma pessoa que acha que vai conseguir construir uma carreira sólida em 5 anos de faculdade escreve um negócio desse?!

O inconsciente é realmente uma coisa muito louca… acho que, de alguma forma, eu já sabia que teria que revisitar minhas escolhas e que, quando essa hora chegasse, o que eu mais precisaria ouvir era o meu passado me libertando de tudo aquilo que eu não me achava capaz de abrir mão.

3 x 4 = 2007 x 2012

Nesse princípio de vida adulta, não são poucas as vezes em que fico ansiosa com o futuro. Nessas horas, eu tento me lembrar da sabedoria desse meu eu muy louco de 17 anos: a gente sempre tem mais 5 anos a nossa frente. E não dá pra ficar deixando o passado ditar nosso futuro. No máximo, ele determina nosso presente e olhe lá. Daqui pra frente, a vida é sua. Do seu presente.

A vida é um presente. Tá entendendo?
Não dá pra ficar gastando ela tentando honrar escolhas passadas.
Você quer ter razão ou quer ser feliz? Me diz?

Era praticamente isso que o meu passado estava me dizendo naquela carta…

Muita gente fala que eu fui corajosa de pular fora do barco do Direito, mas, na real, meu único mérito nessa história foi perceber que, mais importante do que me agarrar ao leme de um Titanic profissional, era não morrer afogada no mar da minha própria existência.

Apesar dos meus medos e inseguranças tentarem me convencer do contrário, uma carreira como advogada era uma alternativa tão incerta quanto qualquer outra. Não adianta: qualquer sensação de controle sobre o futuro é falsa. Quando me dei conta disso, pular para o bote salva-vidas foi mera consequência! Joguei as expectativas fora, pra não pesar, e fui!

Escolhi não ter razão. Optei por mudar de ideia.
E quer saber uma coisa? Foi a melhor coisa que eu fiz.

Não porque deu tudo super certo e desde então eu já consegui correr atrás do prejuízo e conquistar o sonho da casa própria, mas porque eu aprendi uma coisa que tenho convicção de que vai me valer pra sempre: des-pren-di-men-to.

Assim: com todas as sílabas soando uma a uma. Com todas as pausas que essa palavrinha merece. Desprendimento.

Desprendimento do passado.
Desprendimento das expectativas.
Desprendimento das escolhas.

E não há melhor arma contra a ansiedade do que o desprendimento.

A gente vive se apegando a um monte de coisas: ego, carreira, projetos, dinheiro, sonhos nossos, sonhos dos outros para nós, ideias pré-concebidas de amor, sucesso e felicidade, mas, de tudo isso, o que realmente contribui para a nossa felicidade?

Algum dia me disseram que a gente tinha que crescer, entrar na faculdade e estudar bastante para ser “alguém na vida”, como se a minha existência, a minha afirmação como indivíduo estivesse condicionada a essa sucessão já estabelecida de fatos.

Durante muito tempo eu aceitei tudo isso. E estudei muito para ser “alguém na vida”. Escolhi a carreira que forma “alguéns” distintos, passei na faculdade onde todos querem ser “alguém”, consegui um estágio no escritório onde ser “alguém” era requisito. Mas quem disse que isso bastou?

A cada passo que eu dava tentando ser alguém eu esquecia uma coisa fundamental: ser eu mesma.

Quando me dei conta disso, recalcular a rota deixou de ser algo difícil que exigia coragem e passou a ser a coisa mais natural e orgânica que eu poderia fazer. Foi fluído, tranquilo e aliviante, como chegar em casa tirar o sapato depois de um dia cansativo.

(Na verdade, foi literalmente tirar o sapato depois de um dia de trabalho, porque depois daquele estágio nunca mais tive que trabalhar de salto, graçasadeus!)

Eu escolhi me desapegar do sonho de “ser alguém” e abraçar os desejos e vontades de quem eu já era.

E sabe qual é a beleza de tudo isso?
Mudar de caminho é tipo andar de bicicleta, a gente nunca esquece.

Se precisar, eu recalculo de novo.
E de novo.
E de novo.

A gente tem sempre mais 5 anos pela frente e até os 100 anos tem chão!

O ser humano é complexo demais pra querer ser uma coisa só a vida inteira. E a carta do meu passado está guardada pra me lembrar disso, sempre que eu precisar.

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O que eu aprendi com a Shakira

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Ontem estava assistindo a nova temporada de The Voice. Era uma das batalhas mais esperadas da noite: uma dupla meio folk contra um rapaz de meia idade e timbre sen-sa-cio-nal. O treinador, Adam Lavigne, escolheu o clássico “Stuck in the Middle With You” da banda Stealers Wheels.

Logo após a apresentação, todos os jurados falaram um pouquinho sobre o que acharam dos cantores e foi aí que a Shakira em sua infinita sabedoria me trouxe uma lição de vida que superou Waka Waka em genialidade.

Antes de elogiar os cantores, a diva virou para Adam Lavingne e disse “Adorei a escolha da música! Não conhecia essa canção, mas achei ótima e super animada”. Inconformado, Adam respondeu “Essa música não existe na Colômbia?!”. “Nunca ouvi, mas temos outras coisas na Colômbia”.

Touché.
Suck this MANGO, sociedade!

Ali, ao vivo, em rede nacional, Shakira não só teve a coragem de admitir que não conhecia um dos clássicos do rock americano dos anos 1970, como fez isso com a tranquilidade de quem sabe que isso não chega nem perto de diminuir quem ela é como artista e pessoa.

Quantos filmes você já comentou sem nunca ter assistido?
Quantos livros você disse que leu sem nunca ter aberto?
Quantas bandas você finge que conhece, mas nunca ouviu falar?

Relaxa. Não julgo. Já fiz muito disso… inclusive, conheço todas as técnicas do tipo “putz, não lembro… faz tanto tempo que li”.

No mundo da referência, quem viu mais filmes iraquianos é rei e, às vezes, a gente acaba se deixando levar por isso. O resultado? Uma puta crise de autoestima somada a perda reiterada de momentos de troca e aprendizagem com o outro.

Quando ficamos com vergonha de falar “não sei”, automaticamente perdemos a chance de aprender algo novo e quem sai perdendo nessa história é a gente que fica estagnado no mesmo lugar contemplando a própria vergonha com a sensação de que somos uma farsa.

Em algum lugar no meio do caminho da sociedade em que só os sucessos são compartilhados, virou feio não saber. Algo triste e típico de uma realidade que não tolera o erro, feita de pessoas que querem dominar as conversas e protagonizar tudo o tempo todo.

No trabalho, você quer se destacar.
Na mesa do bar, você quer ser o mais culto.
No Facebook, você quer ter a melhor foto em uma exposição do MIS.

Na boa, quem criou esse placar doentio?

Quanto mais rápido a gente erra, mais depressa a gente acerta. Esse devia ser o lema da vida e não uma perfeição assustadora impossível de ser alcançada.

O fato de você não saber alguma coisa não te torna pior. Muito pelo contrário: assumir a ignorância pode te ajudar a crescer. Além disso, da mesma forma como na Colômbia existem outras coisas, você também é muito maior do que as coisas que não sabe ou não conhece.

Da próxima vez que alguém falar daquela banda finlandesa incrível, experimenta falar “não conheço”. Dê a voz para o outro. A conversa que vai vir depois disso vai ser bem mais saborosa. Tenho certeza.

Se a Shakira pode, por que a gente não poderia?

lartigue
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Jogando meu corpo no mundo

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No dia 19 de dezembro de 2013 foi minha colação de grau.
No dia 19 de dezembro de 2013 foi dada a largada.

A corrida?

Aquela que a gente começa quando sai da faculdade.

“Bem-vinda, liberdade” é o que gritamos entre uma foto e outra, no meio daquele monte de eventos, mas a ficha do que isso significa de verdade só vai cair alguns dias depois, quando a ressaca gerada pela quantidade gigantesca de vodca ingerida no baile de formatura já tiver passado a tempos.

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Baila comigo – Festa de Formatura – 15/12/13

Aos poucos vamos percebendo que não é só à liberdade que damos boas vindas. Quando deixamos de ser estudantes, várias coisas mudam na nossa vida e, ao mesmo tempo que nos despedimos da meia entrada no cinema, recebemos uma quantidade absurda de novos desafios e vontades com os quais nem sempre sabemos lidar.

Não me entendam mal! Acho esse momento único e profundamente libertador, mas um tanto assustador e desafiador em muitos aspectos também.

A gente fica meio sem chão porque, de repente, parece que não sabemos mais o que vem pela frente. A verdade é que nunca soubemos, mas sem a possibilidade de responder “estou estudando”quando aquela tia chata te perguntar o que você está fazendo com a sua vida, as inseguranças ganham outra dimensão.

Ao mesmo tempo em que me dava conta disso tudo, conheci a Kalina Juzwiak e o Marcos Korody, um casal muito bacana que decidiu morar junto e criou o blog comTijolo para relatar as experiências e desafios de se construir um lar.

Inspirada por essa iniciativa incrível que está alimentando a rede com um monte de conteúdo bacana sobre a construção de um estilo de vida no qual acredito muito, resolvi criar a minha própria página. Afinal, na era digital, todo mundo tem seu lugar ao sol e no WordPress também.

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O dia em que virei bacharela – Colação de Grau – 19/12/13

Aqui, pretendo relatar um pouco como tem sido a minha experiência nesse começo de vida adulta.

Os desafios são muitos. Começam em construir uma carreira no Jornalismo sendo formada em Direito e se multiplicam até chegar na dificuldade eterna de administrar tempo e dinheiro em uma cidade como São Paulo.

Pois é… a corrida é longa, mas algo me diz que nessa maratona tem mais gente do que na São Silvestre, então vamos juntos?

Vai ser legal a beça! : )